sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Robert Pattinson: “Eric é alguém que sente que pertence a outra realidade”

 
O mestre David Cronenberg volta dessa vez com uma adaptação do romance de Don DeLillo “Cosmópolis”. Robert Pattinson foi o ator escolhido pelo cineasta canadense para dar vida a Eric, um homem de finanças que vive em uma limusine. Algo deverá ter quando entrou nessa nobre galeria de atores na que estão Michael Ironside, James Woods, Christopher Walken, Jeff Goldblum, Jeremy Irons, Viggo Mortensen ou Jude Law.
Você conhecia o romance de Don DeLillo?
Não. Mas eu tinha lido alguns de seus outros romances. Primeiro eu li o roteiro que David Cronenberg, e depois o romance. Um é incrivelmente fiel ao outro, de modo que parece impossível, para um romance que parecia impossível adaptado. Mas, mesmo antes de ler o livro, o que mais me impressionou foi o ritmo acelerado e a tensão continua.
O que mais te atraiu para o filme?
Cronenberg é claro. Trabalhei em poucos filmes ainda, e nenhum se aproxima do que esperava ao trabalhar com ele. Não me decepcionou. Sabia que seria muito criativo e que seria uma experiência única. Também gostei do roteiro, como uma espécie de poema grande. E misterioso também. Normalmente quando você lê um roteiro, rapidamente sabe onde vai, para onde se dirige, como acabará, ainda que pode ter giros inesperados. Mas dessa vez foi completamente diferente, quando mais lia, menos imaginava onde ia, e mais queria fazer parte disso. Não tem nenhum gênero, joga seu próprio jogo.
Quando leu o livro pela primeira vez, você se viu no papel, se imaginava no aspecto visual?
De modo algum. A primeira vez que falei com David, é exatamente o que lhe disse, tudo evoluiu sobre o curso, progressivamente, começando pelo texto, havia as muitas escolhas visuais que dão forma ao filme. É um processo vivo. Inclusive durante a primeira semana de filmagem, ainda nos perguntávamos como seria quando tivesse terminado, era como se o filme fizesse a si mesmo.

Agora que terminou, o filme se diferencia do roteiro ou se ajustou ao que estava escrito?
É difícil dizer, porque o filme tem diferentes níveis, já vi duas vezes, na primeira vez me assombrou seu aspecto de farsa, que estava ali durante a filmagem, mas que era inesperadamente aparente. A segunda vez, a gravidade do que estava em jogo prevaleceu. Nas duas vezes, havia público, mas as reações foram muito diferentes, desde a risada até a tensão pelo lado obscuro que tinha. Apesar dessa complexidade me surpreendeu a maneira que alcança uma ampla gama de emoções.
Na sua opinião, quem é Eric Packer? Como o descreveria?
Para mim, Eric é alguém que sente que pertence a outra realidade, que vive como se tivesse nascido em outro planeta e que tenta descobrir que na realidade deveria viver. De fato, não entende o mundo tal como é. Anda assim o compreende o suficiente para fazer uma fortuna com ele. Seguro, mas de uma forma abstrata. O mundo das finanças consiste em atividades desconexas, e se dão bem, não como um especialista genuíno, se não mais bem graças ao instinto, algo mais misterioso, com ajuda de algoritmos não muito diferentes a fórmulas mágicas. Pode ver no filme também que sua abordagem aos dados financeiros tendem a projetar-lhe no futuro, tanto que já não sabe como viver no presente. Provavelmente sabe como funciona o mundo real, mas só de uma forma peculiar e obscura.
Falou disso com o David Cronenberg?
Um pouco, sim, mas ele quis que buscasse algo indecifrável e inexplicável. Ele gostou em particular, quando eu atuava sem saber realmente o que estava fazendo, e como via que eu criava cadeias de causa e efeito, o que chegava a explicações lógicas, cortava a tomada. É uma maneira estranha de gravar, baseada totalmente em sensações mais que em ideias.
Como se preparou para o papel?
David não gosta de ensaiar. Não falamos muito do filme antes de rodar. Não conheci os outros atores até que cheguei no set. Os descobri quando apareciam, literalmente, na limusine de Eric Packer. E foi agradável. Desde o começo das filmagens, vivi dentro do filme, e dentro de um carro: sempre estava ali, era minha casa e dava boas vindas aos atores no meu espaço, sentado nessa espécie de cadeira de capitão, com todo o mundo visitando-me. Estar acostumando nesse medo foi uma ajuda. Todo o mundo devia adaptar-se ao que era basicamente meu mundo.
Recebeu sugestões sobre sua aparência ou sua roupa?
Sim, o assunto é que tinha que ter um look neutro, tentamos evitar os estereótipos mais evidentes de um homem de negócios rico. A única discussão foi sobre a escolha dos óculos de sol no começo. Eu buscava ao que menos dissesse sobre o personagem.
Que diferença faz gravar na mesma ordem que no roteiro?
É realmente importante, tem um efeito cumulativo que afeta o filme. No começo, ninguém sabe realmente qual vai ser o tom do filme, bom talvez David sabe, mas ele não te diz. Para a equipe, é este efeito cumulativo, à medida que personagem se revela, o que pouco a pouco constrói a personalidade do filme. Permite ao personagem soltar-se a medida que sua vida esta desmoronando.
Uma das particularidades é que, um a um, você vai se encontrando com grandes atores. Como você se sente?
Quando eu concordei em fazer o filme, o único ator no projeto era o Paul Giamatti, o que me pareceu fantástico. Então, foi algo mágico e assustador ao mesmo tempo, ver como Juliette Binoche, Samantha Morton, Mathieu Amalric, etc… eles se uniam ao projeto. Cada um traz algo diferente. Não foi fácil para eles, especialmente quando David espera que todos se transformem em suas atuações, que se devem levar. Foi um desafio para eles, em tão pouco tempo. Quanto a mim, eu estava sentado neste mundo, mas os outros tiveram que se acostumar. De fato, algumas fizeram coisas muito criativas durante as filmagens. Especialmente Juliette Binoche que criou versões muito diferentes de suas interpretações.
Diria que teve vários estilos de interpretação, quem sabe devido as diferentes nacionalidades presentes que todo o mundo encaixava ao molde de Cronenberg?
Houve sensibilidades diferentes, e eu acho que isso é o que David buscava. Esta diversidade é enfatizada pelos personagens que se supõe serem americano, exceto Mathieu Amalric. Esta diversidade é coerente com Nova York, onde todo mundo parece vir de lugares diferentes, e onde o idioma nativo de muitos não é o inglês. É claro que o filme não busca o realismo, incluindo a cidade, nunca se insiste em uma localização concreta. Mas ter atores com diferentes trajetórias reflete o que a cidade é, contribui para o estranho e abstrato do filme.
No que você se refere, tinha alguma referência, algum ator que lhe inspirou?
Ao contrário, de fato, tentei livrar-me de qualquer referência. Especialmente que não fizesse o público se lembrar de outros filmes sobre Wall Street, homens de negócios, etc… Queria encontrar o estado mental correto, mais que confiar em atitudes ou efeitos interpretativos.
Lembra se Cronenberg tinha alguma demanda específica quando trabalharam juntos?
Insistia que disséssemos os diálogos exatamente como estavam escritos, ao pé da letra. Não tolerava nenhuma variação. O roteiro depende em grande parte do ritmo, tínhamos que cumprir com isso. Estava muito seguro disso, assim que fizemos poucas tomadas, algo que dava um pouco de medo. O primeiro dia de Giamantti de filmagem, Paul pronunciou de uma só vez um largo monólogo de seu personagem, é o maior do filme, e David o rodou em uma só tomada. O fez, e seguimos adiante.
Você gostou de trabalhar assim, escrupulosamente, pronunciando os diálogos ao pé da letra?
Ele criou algo que não era familiar para mim, o que precisamente me motivava para fazer o filme. Nunca me haviam pedido nada assim. Normalmente os roteiros não seguem escrupulosamente, só são uma base para os atores e se supõe que esses devem fazê-los seus. Nos meus filmes anteriores os diálogos eram flexíveis. Dessa vez, foi como atuar no teatro: quando faz Shakespeare não pode mudar as frases.
A limusine é um pouco como um palco.
Absolutamente. E em um palco assim pode gravar várias cenas, ou seja que deve estar preparado para gravar várias. Passei muito tempo aprendendo meus diálogos, pela primeira vez desde que comecei, faz bastante tempo. Cria uma tensão, tem que permanecer alerta, algo que é para o bem… Ainda me obrigou a viver como um recluso durante a filmagem: tinha que saber o papel, lembrar dezenas de páginas, estar centrado. Mas de fato foi uma experiência agradável, é melhor que em outras filmagens onde tudo está fracionado.
O que foi mais difícil durante a filmagem?
Foi inquietante interpretar um personagem que não sofre uma evolução ou que não seja previsível. Bom, sei que evolui, ainda que não da forma que estamos acostumados. Mas David controla essa dimensão completamente. Nunca tinha trabalhado com um diretor que controla tanto seu filme, que se considera a si mesmo completamente a mando de cada aspecto, sabendo exatamente o que quer em cada frase. No começo me pareceu estranho, mas pouco a pouco me senti mais e mais seguro.
 
 

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